Tomado pelo bom senso, com o voto do Relator e da sua Presidente, o
Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou a aprovação das
pesquisas com células-tronco embrionárias, conforme previsto
na Lei de Biossegurança. Como se espera, o STF está julgando
improcedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade contra
a autorização legal para as pesquisas. A partir do final
do julgamento, os cientistas poderão usar em seus experimentos
os embriões congelados a mais de três anos, precisando
apenas da autorização do casal doador. Isso dá
um destino útil aos embriões congelados, que de outra
forma seriam simplesmente descartados. Evitando-se esta irracionalidade,
com algum esforço, os pesquisadores brasileiros poderão
“tirar o atraso” e acompanhar o andamento das investigações
mundiais na área. Com o tempo, os estudos contribuirão
para a descoberta de meios terapêuticos para o tratamento de doenças
tidas como incuráveis, como o Mal de Parkinson, a Distrofia Muscular,
a Paraplegia e a Doença de Alzheimer, dentre outras.
Mas a decisão do STF, embora apoiada pelos que
são solidários aos que sofrem com doenças ainda
incuráveis, não alcançou unanimidade. Enfrentou
fanática oposição capitaneada por líderes
cristãos, argumentando que quando um espermatozóide adentra
um óvulo em laboratório já há início
da vida e por isso o embrião aí formado não pode
ser usado em pesquisas e terapias. O que não explicam é
como o embrião de proveta vai fazer para se desenvolver e tornar-se
um ser humano sem contar com o acolhimento de um útero...
Em O Evangelho segundo o Espiritismo (Cap. I, Item 8),
Allan Kardec escreveu que “a Ciência e a Religião
são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela
as leis do mundo material e a outra as do mundo moral”. Teve razão
o Codificador do Espiritismo em anotar esta afirmação,
pois do conflito entre Ciência e Religião surgiu, em todas
as épocas e lugares, a incredulidade e a intolerância.
Se bem que a humanidade neste confronto, entre idas e vindas, tem preferido
ficar com a Ciência... O Espiritismo veio ao mundo para mediar
este conflito e induzir o diálogo produtivo entre Ciência
e Religião, tanto é que, sendo uma Religião, tem
como postulado que o progresso da Ciência pode modificar suas
diretrizes e, assim, não tem dificuldades em admitir novidades
como neste caso. É que o Espiritismo compreende que a melhoria
progressiva da qualidade de vida que a Ciência vem proporcionando
aos homens não é senão uma cabal manifestação
da misericórdia divina. A Ciência avança e proporciona
maiores recursos a todos nós que estamos na Terra para expiar
nossas faltas e experimentar novos aprendizados, “mas, todos,
sem exceção, devemos esforçar-nos por abrandar
a expiação dos nossos semelhantes, de acordo com a lei
de amor e caridade”. (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap.
V, Item 27)
Como espírita convicto, asseguro que não
há qualquer comunicação mediúnica idônea
contendo veto à pesquisa com embriões congelados e nenhuma
prova de que a estes existem espíritos reencarnantes associados.
Não há possibilidade de advento de uma criatura humana
a partir de um embrião que não seja devidamente acolhido
pelo complexo materno... Logo, não tem sentido fazer agitação
em busca de notoriedade e dizendo que se “defende” a vida,
quando a equação “espermatozóide + óvulo
+ útero” não se formou. Por outro lado, mutatis
mutandis, a doação de órgãos de pacientes
com morte encefálica é acolhida pelo Espiritismo sem restrições,
já que não há mais possibilidade de preservação
da vida intelectual e moral do que alcançou este estágio.
São duas formas de doação de órgãos
para o tratamento de doentes graves: as células-tronco embrionárias,
obtidas por meios artificiais antes da formação de um
ser humano, e os demais órgãos, quando da constatação
da morte encefálica. Apenas isto!
Seja como for, convém que o STF afaste dúvidas
e aprove as pesquisas. Assim se dará um recado claro aos que
fazem do profissionalismo religioso meio de alcançar o conforto
da vida política. Ficará claro que o Brasil não
se rende ao obscurantismo clerical que tentam reeditar. A Ciência
continuará avançando em termos éticos para que
brevemente os necessitados se beneficiem de suas descobertas, principalmente
os mais pobres, que, caso as pesquisas não fossem feitas no Brasil,
seriam excluídos de seus benefícios, pois, diferentemente
dos ricos, não têm como pagar tratamentos no exterior e
dependem da rede pública de saúde para a satisfação
de suas demandas.
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[1] Antonio Baracat é Professor de Filosofia
e História formado pela UFMG, Especialista em Bioética
formado pela UFLA e Mestre em Filosofia em formação pela
UFMG. Membro da Fraternidade Espírita “Casa do Caminho”
de Belo Horizonte.
Boletim GEAE - Ano 16 Número 534 2008
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