A força do Espiritismo
MARCUS VINICIUS
DE AZEVEDO BRAGA
acervobraga@gmail.com e
PAULO DE TARSO LYRA
brasiliaespirita@uol.com.br
Brasília, Distrito Federal (Brasil)
A força
do Espiritismo não se faz pelos seus representantes governamentais,
pelas celebridades que comungam essa crença ou pela altura do
domo das casas espíritas; sua força vem do nosso exemplo
Certa vez, em um jornal espírita da década
de 90, lemos a seguinte frase de um articulista:
“(...) perdemos
a grande oportunidade de eleger fulano como deputado federal e mostrar
a força do Espiritismo”.
Será que essa é realmente a força
do Espiritismo? Será que o Espiritismo, como religião,
precisa de representantes na estrutura da República?
Essa questão sempre volta à baila em períodos
eleitorais, quando recebemos e-mails ou vemos peças de publicidade
de candidatos que exaltam essa condição, na busca de ampliar
a sua base de eleitores por uma afinidade religiosa. Além de
procurar no público espírita seus eleitores, alguns, por
vezes, se arriscam a se proclamar representantes do Espiritismo no plano
político. Essa situação não é das
mais simples e implica diversas questões.
Quando falamos de candidatos espíritas, pensamos
logo em situações em que a imagem e o bom nome do Espiritismo
não sejam afetados, caso um candidato dito "dos espíritas"
apareça em situações lamentáveis na mídia.
Por outro lado, a vida política é saudável
e desejável. A política está presente no nosso
dia-a-dia, quando precisamos fazer escolhas, estabelecer consensos,
negociar, ceder, em prol de um bem maior. O espírita não
pode ser um alienado, ele é um "homem do mundo" –
de nada adianta viver os nossos dias pensando apenas nos sofrimentos
ou consolações futuras.
Em tempos recentes vivemos recheando nossas Casas Espíritas
com eventos grandiosos de autoajuda, shows artísticos, badaladas
palestras e novidades literárias. Queremos descobrir o que fomos
no passado, mas abdicamos de fazer o bem no presente.
Os espíritas não podem esquecer
que são também cidadãos, homens com deveres diante
da questão social
Fazer o bem é se ligar às questões
sociais, ao coletivo! Nesse sentido, não devemos ser omissos.
Precisamos estar engajados nas lutas sociais, nas questões da
coletividade, na busca do bem comum.
Como diria Bezerra de Menezes, que, aliás, foi
deputado antes de presidir a Federação Espírita
Brasileira:
“(...) para nós, a política é
a ciência de criar o bem de todos. E nesse princípio,
nos firmaremos”.
E nesse campo também é possível
fazer o bem! A política também é sementeira divina
do plantio do progresso.
Essa intervenção permanente do Espiritismo
nos problemas do mundo se apresenta bem em A Gênese, quando Kardec
assevera:
“(...) o Espiritismo trabalha
com educação. Esta é a base da própria
Doutrina, pois, para praticá-la, temos de nos educar. E a educação
tem um conteúdo extremamente político, pois muda nossa
forma de ver o mundo e de agir nele”. Reafirma-se aí
a necessidade de os espíritas não esquecerem que são
também cidadãos, homens do seu tempo, com deveres diante
da questão social.
A necessidade de nossa participação na
vida social é, no entanto, diferente da situação
de apresentar-se com a credencial "espírita" para pedir
votos.
“O Espiritismo se liga a todos os campos das
atividades humanas, não para entranhar-se neles, mas para iluminá-los
com as luzes do Espírito. Servir o mundo através de
Deus é sua função e não servir a Deus
através do mundo”, reitera Kardec na mesma obra já
citada.
Não pensamos ser um bom caminho adotarmos
o lema “espírita vota em espírita”
Em face disso, se quisermos pleitear a ocupação
de um cargo público eletivo, devemos nos isentar de associar
essa cruzada político-social aos papéis desempenhados
no movimento espírita, e, como disse Kardec, iluminar nossa jornada
política com o Espiritismo e não o Espiritismo com a nossa
jornada política. Essa é a diferença entre ser
um espírita-candidato e ser um candidato-espírita.
Quanto aos eleitores, nos parece bastante razoável
que cada um escolha aqueles projetos que, de acordo com seu foro íntimo,
atendam de maneira mais adequada às necessidades de sua coletividade.
E, com base nesses, escolha seus candidatos, independentemente das crenças
que esses professem. Para isso existem partidos políticos, para
congregar nossas ideias no campo político! Existem várias
formas de se obter espaço, prestígio ou força para
defender nossos princípios, que não seja a opção
de destacarmos, dentre um numeroso grupo de espíritas, um representante
para disputar um cargo eletivo.
A César o que é de César!
O Estado é laico!
Essa foi uma grande luta desse país e constitui
a base da democracia. Não pensamos ser um bom caminho adotarmos
o lema “espírita vota em espírita”. Isso pode
redundar em situações-limite de pedidos de votos em reuniões
públicas, ou ainda, intervenções na opinião
política dos frequentadores da casa espírita, ambas as
situações que na nossa visão seriam eticamente
inconcebíveis.
A força do Espiritismo não se faz
pelos seus representantes governamentais, pelas celebridades que comungam
essa crença ou mesmo pela altura do domo das casas espíritas.
A força vem do exemplo e da difícil tarefa de se fazer
a reforma íntima para a construção do homem de
bem. Esse é o nosso desafio!
Não devemos votar em alguém
pelo simples fato de ele trazer em seu currículo a condição
de espírita
Para isso não conseguimos vislumbrar, sinceramente,
a necessidade de se ter um representante do segmento espírita
em qualquer órgão legislativo ou do Executivo, como situação
que ajude a promover a renovação na busca do homem de
bem. Somos espíritas e cidadãos, o que não são
coisas excludentes. Queremos, sim, pela nossa ação, povoar
de homens de bem as instâncias decisórias, sejam eles espíritas
ou não.
O grande risco dessas situações, em um
país com muitos espíritas como o nosso, com um número
maior ainda de simpatizantes, é o oportunismo de se aproveitar
o bom nome que goza o Espiritismo para carrear votos e a promoção
pessoal no período eleitoral.
A questão da representatividade é de mão
dupla. O candidato representa o Espiritismo, mas o Espiritismo é
representado por sua conduta como político. Se ele se arvora
em se proclamar representante da Doutrina, acaba com sua imagem representando-a
para quem o ouve, mesmo que o movimento espírita disso não
se dê conta.
A decisão de alguém de se candidatar é
um direito individual que deve ser respeitado. A participação
política deve ser uma consciência, sob pena de nos tornarmos
analfabetos políticos, como bem preconizava Bertolt Brecht. Mas
não devemos depositar nosso voto pela simples razão de
o panfleto do candidato trazer, como currículo, o fato de ser
espírita, doutrinador, orador ou congênere.
O voto deve ser dado pela história de cada um,
pelas suas propostas e pelo seu alinhamento na esfera política.
Se o votado for espírita, ou não, isso pouco deve importar
nesse contexto.
Fonte: O Consolador -
http://www.oconsolador.com.br/ano4/178/especial.html