MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA
Túu-Túu-Túuu-
Ressoava novamente lá pras bandas de Ouro Fino, no Estado de
Minas Gerais, o brado daquele berrante. Instrumento imponente, de chamar
gado e gente, cortava com sua nota dissonante vales e serras, anunciando
a novidade daquela manhã.
O vaqueiro, que em outros tempos ficara desolado
com a súbita partida do menino, vítima de um boi sem coração,
via agora a sua vida se esvair. O tempo, implacável, levava as
forças daquele corpanzil que conduziu boiadas mil pelo nosso
Brasil, somando-se mais uma cruz à do menino no antigo estradão.
Olhando perdido para todos os lados, já
confuso entre os portões da vida e da morte, o velho boiadeiro
somente consegue distinguir no dourado do horizonte o som daquele berrante
que ele jurara jamais tocar novamente. Som que ele há muito não
ouvia e que lhe trazia no coração as lembranças
do menino tão trigueiro, que abria a porteira para a sua boiada
passar.
À medida que o som se aproximava, via surgir
um pequeno jovem de cor de ébano, cavalgando bela montaria, tocando
berrante em meio de uma imensa boiada. O vaqueiro, em um misto de alegria
e de espanto, pergunta com sua voz de trovão ao jovem anjo:
“- Quem é você, que como eu
conduz o gado? Por que toca esse berrante que jurei jamais tocar?”
O menino apeia do cavalo, tira o seu chapéu
para cumprimentar o boiadeiro. De seu bolso, tira uma moeda, entrega
ao boiadeiro, juntamente com seu berrante.
“- Boiadeiro, que Deus vá lhe acompanhando!
Eu sou aquele menino da porteira e estou aqui para recebê-lo,
nas portas do país da luz. Seja bem-vindo! Siga agora para amealhar
outros rebanhos, para tocar outra vez com fé o seu berrante...”
E com as mãos firmes, apagada da memória
a cruzinha do estradão, o boiadeiro toma de novo o seu berrante,
que prometera jamais tocar, e, com novo ar em seus pulmões, corta
com sua nota dissonante vales e serras, anunciando a novidade daquela
manhã:
Túu-Túu-Túuu.
- Inspirado
na famosa música do cancioneiro popular “O menino da porteira”
(1955), sucesso na voz do cantor Sérgio Reis, composição
de Teddy Vieira / Luizinho, transformada em filme homônimo em
2009, pela direção de Jeremias Moreira, existindo também
uma versão em 1977.
- http://www.oconsolador.com.br/ano4/191/marcus_braga.html