Espiritualidade e Sociedade



Manuel Bulcão

>    A Intuição no processo do conhecimento

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Manuel Bulcão
>    A Intuição no processo do conhecimento

 



1. HIPÓTESES APARENTEMENTE ABSURDAS

Muitas hipóteses levantadas pelos físicos são rejeitadas "instintivamente" pelas pessoas (inclusive cientistas), sob a alegação de que são idéias "absurdas".

Na lista de filosofia da UOL, discutindo com um colega sobre o fluxo do tempo (estava eu a defender a hipótese, sustentada por Roger Penrose, de que o fluxo temporal é apenas uma sensação, que o tempo, como uma quarta coordenada do espaço, na verdade não flui), meu interlocutor argumentou que o cientista deve, em algumas situações, considerar o que lhe diz a intuição, para não ficar postulando disparates, absurdos, bobagens sem limites.

A minha contra-argumentação foi a seguinte:

«A intuição é muito útil para nos orientar neste mundo mediano em que vivemos, situado entre o muito pequeno e o extremamente grande. A propósito, é bom lembrar que o nosso aparelho mental é, antes de tudo, um instrumento de sobrevivência, e que esse conhecimento antepredicativo que temos da realidade - o conhecimento dito "intuitivo" - não é outra coisa que o momento subjetivo da mais imediata forma de atividade que o indivíduo desenvolve na natureza e na sociedade e com vista à mera reprodução da sua existência.

Ora, não é no mundo subatômico que o indivíduo humano labora, e nem necessita ele, para manter-se vivo, de se deslocar mais de algumas centenas de milhares de quilômetros durante toda a sua vida - uma vida que dura, em média, 70 anos. De sorte que o que se passa no mundo dos quarks, léptons e fótons, bem como naquele outro mundo cuja unidade de medida é o megaparsec, ou, dito em outros termos, o que se passa além das fronteiras desse nosso mundo medíocre em que os objetos se movem a uma velocidade muito inferior a da luz é, realmente, de desorientar os sentidos e dar curto-circuito em neurônios.

Nosso cérebro não foi projetado para "compreender" a realidade dos "quanta" ou a macroestrutura do espaço-tempo. Querer que este mundo que não é o mundo da nossa atividade do dia-a-dia condiga com a nossa intuição é querer o impossível.

Einstein, graças à sua imaginação e criatividade, teve grandes "insights" acerca da natureza do espaço, do tempo, da matéria e da energia. No entanto, sua intuição o fez aferrar-se à crença de que, nos fenômenos quânticos, existem parâmetros ocultos, isto é, o conhecimento "intuitivo" de que tudo tem uma causa e que a cada causa corresponde um único efeito o fez defender a idéia de que existem determinadas variáveis ainda não acessíveis ao conhecimento humano, e que é precisamente o desconhecimento desta causalidade subjacente que faz com que a realidade quântica nos pareça indeterminista. Vale dizer, Einstein, por causa da sua intuição acerca da relação causa-efeito, não aceitou a incerteza como algo intrínseco ao mundo dos "quanta". Bohr, ao contrário, não só aceitou como demonstrou que os fenômenos subatômicos podem ser "explicados" satisfatoriamente sem que seja necessário recorrer ao determinismo laplaceano.

Mas é bom que se ressalve que o termo "incompreensível" não é sinônimo de "inexplicável". O mundo do infinitamente pequeno e o do incomensuravelmente grande podem ser explicados, sim, porém não com os meios que dispõe a linguagem ou mesmo (talvez) a lógica aristotélica. Essas realidades extremas e inóspitas deixam-se revelar através da matemática, que, segundo Galileu, é a linguagem da Natureza. Infelizmente, Johann Von Neumann tem razão quando diz que "em matemática você não compreende as coisas. Simplesmente se acostuma a elas."

Com efeito, sempre que um fenômeno subatômico é comunicado na linguagem corrente, deparamo-nos com paradoxos do tipo "uma partícula está e não está em vários lugares ao mesmo tempo". Isso é um disparate, porém um disparate que a matemática "explica" e a experiência comprova.»

Em miúdos: para mim, o que tem coerência matemática e ainda não foi (ou não pode ser) refutado pela experiência encerra uma possibilidade de verdade.

2. A INTUIÇÃO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Em outro ensaio, argumentei que o processo do conhecimento é análogo ao processo de trabalho, sendo a matéria-bruta os dados sensórios; os instrumentos "de trabalho" - no caso, instrumentos de cognição - as formas inatas do pensamento e da linguagem; e o produto final o conhecimento. Disse também que o que forjou a "identidade" entre a estrutura da mente humana e a estrutura da realidade objetiva (sem essa identidade não haveria como o juízo se adequar ao fato, isto é, não existiria a "verdade", essa poderosa arma de sobrevivência) foi o mesmo mecanismo responsável pela adaptação dos organismos vivos ao meio ambiente, a saber: a seleção natural.

Mas será que existe alguma maneira alternativa de se aceder à verdade? Ou seja, será que existe uma outra forma de gnose que não seja essa combinação experiência/raciocínio lógico-matemático?

Penso que sim, e acho que tal alternativa - a intuição - tem um papel importante naquelas ciências cujo objeto de investigação é precisamente os "universais formais" do pensamento e da linguagem. Por quê? Ora, se há em nossas mentes formas e princípios inatos e a priori, então o conhecimento de tais princípios é, em larga medida, um reconhecimento. Os matemáticos e os lógicos, cientistas que se distinguem pelo acentuado pendor ao catesianismo, são também, via de regra, homens altamente intuitivos.

A bem da verdade, a intuição é essencial em todas as ciências "humanas", dado que, nessas ciências, o ser humano é ao mesmo tempo sujeito e objeto do conhecimento. Ou seja, o que distingue a metodologia das ciências naturais da metodologia das ciências humanas é, precisamente, a função de destaque que a intuição desempenha nesta última. Com efeito, um físico, ao olhar para o céu, não sabe o que lá vai encontrar: aquele ponto luminoso pode ser uma estrela, um planeta, uma galáxia distante, um longínquo quasar ou algo absolutamente desconhecido. Somente após um laborioso processo de confronto com uma profusão de dados já registrado é que o físico começará a ter uma idéia do que seja tal ponto de luz. Já um cientista da sociedade, um economista, por exemplo, ao debruçar-se sobre o objeto de estudo "mercadoria", já sabe de antemão do que se trata; ou seja, antes mesmo de uma análise minuciosa, tem ele uma idéia - vaga, sem contornos, "intuitiva" - do que seja uma mercadoria. Dito em outros termos, nas ciências humanas o ponto de partida do processo cognitivo é sempre uma idéia vaga e imprecisa, uma verdade meramente esboçada, aquilo que Kant denominou de conhecimento "antepredicativo" da realidade - em oposição ao conhecimento "teórico-predicativo", que advém após os procedimentos da análise.

No plano epistemológico, o que distingue um racionalista de um irracionalista não é o fato de os racionalistas menosprezarem a intuição como "momento" do processo cognitivo. Todos os "bons" racionalistas conhecem a função da intuição em tal processo. Para eles, a antítese intuição/razão é uma falácia. Aliás, quem busca a verdade sabe, por intuição, que a verdade existe, não é mesmo?

Marx, que, sem sombra de dúvida, foi um grande pensador racionalista do século XIX, quer concorde com ele ou não, disse certa vez que "tudo que é humano não me é estranho". Significa dizer que, ao menos nas ciências da sociedade e do espírito, o cientista jamais parte do absolutamente zero.

Realmente, o que distingue o racionalista do irracionalista é que este último tende a exagerar o papel da intuição no processo do conhecimento, às vezes negligenciando por completo os rigores da análise. Para essa turma, todo conhecimento "profundo" da realidade é sempre fruto de uma grande "sacação". E como as sacações geniais pressupõem gênios, os irracionalistas estão sempre idolatrando "grandes homens", sendo Nietzsche, atualmente, o dileto guru. Diante de um Nietzsche, o irracionalista queda-se hipnotizado, absolutamente desprovido de senso-crítico, que é o que distingue o filósofo verdadeiro do seu arremedo.

3. A INTUIÇÃO NO PROCESSO DO CONHECIMENTO

"Newton contemplou a natureza com conhecimentos adquiridos em seus estudos, o que é diferente de "observar" um fenômeno sem conhecimento algum." (Alberto Mesquita; Física e Teorização)

Com certeza observamos o mundo não apenas com nossos sentidos, mas também com a memória. Percepção = sensação + memória.

Sabe-se, no entanto, que temos dois tipos de memória: uma memória que se forma no transcurso da vida individual, mediante a interação do indivíduo com o meio e através do processo de aprendizado; e uma outra memória, mais primitiva, que se transmite de uma geração a outra por meio da herança genética.

Trata-se esta última de uma memória "arquetípica", que começou a se formar no exato momento em que o primeiro organismo vivo surgiu sobre a face da Terra (logo, uma memória que, em larga medida, é anterior ao gênero humano), e por meio daqueles mecanismos mais gerais: a mutação genética e a seleção natural.

Essas informações arquetípicas do meio ambiente que, antes de constarem no cérebro, já estavam presentes nos genes, constituem aquele conhecimento "a priori" da realidade ("a priori" com relação ao indivíduo, frise-se) que, para a imensa maioria das pessoas, é inquestionável.

Quando falo em intuição, refiro-me àquela percepção do mundo intimamente associada à esse conhecimento inato: um conhecimento cuja função é orientar o indivíduo "dentro das fronteiras do seu habitat" e que é, portanto, "um instrumento de sobrevivência".

Essas informações genéticas são, para nós, "evidências" (para Descartes, a intuição é a visão da evidência). Mas tais evidências, tais verdades "apriorísticas" são, em larga medida, verdades "regionais", isto é, verdades atinentes aos fatos do nosso mundo mediano (alguns diriam, newtoneano), situado entre o mundo dos quanta e o dos aglomerados de galáxias. É por isso que os físicos, ao estudarem o mundo subatômico ou a macroestrutura do espaço-tempo, devem ter o máximo cuidado com sua intuição "primária".

Claro que podemos falar de uma intuição "secundária", associada aos conhecimentos "culturais" que obtemos graças à nossa interação com o mundo ou que nos são transmitidos pela sociedade através da linguagem.

A intuição "secundária", ao meu ver, e neste ponto também concordo com o Mesquita, não é um ato, mas um "processo" perceptivo subconsciente (nada a ver com "inconsciente") em que o sujeito se vale mais da imagem e menos do conceito. Ademais, a intuição é um raciocínio não tanto por indução ou por dedução, mas por "abdução".

A "abdução" é um raciocínio por analogia. Foi o semioticista Peirce quem primeiro utilizou o termo "abdução" para designar esse tipo de raciocínio, que em inglês significa "rapto", "rapinagem". Umberto Eco, em seu ensaio A Abdução em Uqbar, explica essa modalidade de operação mental do seguinte modo: "Se tenho um resultado curioso num campo de fenômenos ainda não estudado, não posso procurar uma Lei daquele campo (…). Preciso 'raptar' ou 'tomar emprestada' uma lei noutro lugar. Como vêem, devo raciocinar por analogia."

Em um ensaio que escrevi há uns sete anos (e que jaz incompleto e a criar bolor em algum lugar do meu disco rígido), tem um trecho em que falo das "abduções de Darwin". Sabe-se que o grande "insight" de Darwin adveio após ter ele lido o livro de Malthus sobre população. Segue o texto:

«Darwin, ao regressar da sua viagem a bordo do Beagle, e tendo em mãos uma riquíssima coletânea de dados a respeito da fauna e da flora de várias regiões do mundo, pôs-se então a refletir mais acuradamente sobre aquilo tudo. Mas, diante de tão rico catálogo, seu cérebro reagia não como uma tábula rasa; ao contrário, por trás da rigorosa análise científica dos fatos operava, também, a sua intuição, ou seja, aquilo que Edmond Husserl chamou de consciência antepredicativa, esta muito mais sintética do que analítica, e que, segundo as palavras de André Dartigues, define-se como "o liame que liga a ciência ao mundo da vida, isto é, ao mundo cotidiano em que vivemos, agimos, fazemos projetos, entre outros, o da ciência, em que somos felizes ou infelizes." Pois bem, o mundo cotidiano de Darwin - que, com toda certeza, funcionou como pano de fundo da sua pesquisa - não era outro que a industriosa Inglaterra do Século XIX; um mundo caracterizado por um dinamisno jamais visto, dinamismo este fundado em leis tão objetivas quanto as que presidem o movimento dos astros, o que equivale a dizer que não foram criadas "deliberadamente" pelo homem (ou seja, não foram outorgadas à sociedade pelas suas instituições de estado). Em outros termos, o mundo de Darwin é este nosso mundo capitalista regido pelas "férreas" e impiedosas leis da oferta e da procura; leis que, como as regras de qualquer jogo de azar, dividem os homens em vencedores e perdedores (estes a grande maioria); que transformam a sociedade humana num cruel campo de batalha, mas que, graças aos antagonismos que criam, reproduzem sempre de uma forma ampliada a riqueza dos homens, conferindo deste modo à história um sentido que ela antes não tinha: o sentido do progresso.

"A abdução de Darwin consistiu, pois, em atribuir à vida em geral o modus vivendi dos seus compatriotas; ele entreviu no mundo tumultuoso das criaturas vivas a mesma luta encarniçada pela existência e a "sobrevivência dos mais aptos" que então imperava em sua Inglaterra vitoriana. Aquela ilação de Adam Smith que, em resumo, traduz-se na máxima "cada um por si e o mercado por todos" foi reelaborada muito criativamente por Darwin, que passou a enunciá-la mais ou menos nos seguintes termos: na natureza, cada organismo vivo age "egoisticamente", isto é, unicamente em benefício próprio e tendo por meta otimizar a propagação do seu plasma germinativo - tal como o homo oeconomicus que subordina a sua vida à consecução de um único objetivo: a maximização do lucro da sua atividade empresarial -. Quanto à harmonia do Todo, a ordem que jaz sob a desordem aparente da biosfera, o que a garante é um mecanismo denominado "seleção natural" - o equivalente biológico das leis do mercado -, que, como a própria expressão sugere, consiste em que, nesse conflito que envolve todos os viventes, somente os mais aptos sobrevivem e conseguem disseminar seus genes, ao passo que os inaptos ou são mortos e comidos ou então são transformados em objeto de exploração - uma analogia aos resultados da concorrência intercapitalista, a saber: a quebra e subseqüente proletarização dos ineficientes, a distribuição desigual da riqueza, etc.»


Manuel Bulcão; A Gênese do Sentido

Fonte: http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/Membros/MBULCAO/intconhec.htm

 

 


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