Marcus Vinícius de Azevedo Braga

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Marcus Vinícius de Azevedo Braga
Pureza ou dureza doutrinária?

 

 

Estava eu, dirigindo na engarrafada Avenida Brasil, em uma dessas manhãs ensolaradas, quando me deparo com o adesivo no carro da frente, com os dizeres gritantes: “Em nome de Jesus, muita safadeza se produz”, frase de efeito, um tanto chula, é fato, mas que me remeteu imediatamente a outra frase famosa na internet , “Jesus é gente boa, o que estraga é o fã clube“, expressões emblemáticas da decepção vigente com as religiões e as suas sucessivas deturpações dos seus espíritos originais, adaptados não à realidade, mas às conveniências, fraquezas e ambições do ser humano, e seus jogos de poder.

Nesse movimento de deturpação, trocamos sem cerimônia, na História da humanidade, o amor pela graça, a plenitude pela salvação, a confiança pela fé cega e seguimos, de forma conveniente, adaptando verdades, calando o nosso bom senso, chegando a conjecturas ridículas, que viram verdadeiras piruetas filosóficas para adaptar escritos religiosos aos nossos conceitos. Vou abster-me de enumerar tais situações para evitar controvérsias estéreis, mas sabemos que essas manobras passam por questões de sexualidade, igualdade social e mitigação de conceitos humanistas.

Entretanto, nós outros, defensores das ideias do pedagogo francês que viu seus livros queimados em praça pública, que soube revolucionar paradigmas de forma coerente e pacífica, também padecemos de nossas fixações deturpatórias, inebriados por uma ideia de disciplina, de ordem, de padronização, em uma postura vestal e por vezes alienada do mundo real, e nesse sentido, destacaremos no presente artigo um grande instrumento de opressão e segregação nas fileiras espíritas: a pureza doutrinária.

Justificado pela observância dessa pureza, que busca catalogar atos e fatos como doutrinários ou não, com vieses na prática no qual o próximo de uma cultura afro não recebe o mesmo tratamento de algo na linha cristã-ocidental, cometemos violências simbólicas de censuras, proscrições e banimentos. Fazemos da pureza doutrinária o que é e já foi a Bíblia, tratada como escritura sagrada, imutável régua a medir a tudo e a todos.

Espere…espere! Entendi bem, ou na constante pressão que sofremos no movimento espírita com a possibilidade de invasão de práticas estranhas, você autor está defendendo uma liberação geral de tudo e de todos, um supra relativismo, um grande “pan-espiritismo ecumênico”, no qual caiba tudo, independente dos ensinos kardequianos, agregando práticas e ideias de toda ordem, em especial ao gosto do freguês?

Não. Definitivamente não… Se estivesse propondo isso, seria compactuar com uma mercantilização religiosa, de agradar os demandantes, adaptando-se para se expandir. O que defendo aqui é que não precisamos de bulas papais ou comissões inquisitórias que classifiquem saberes à luz de suas interpretações, sem debate, de forma hierárquica. O que aponto é a necessidade de se fortalecer o diálogo crítico em relação às práticas e que sejamos caridosos nessas relações, respeitando as pessoas e as suas peculiaridades.

Falando do aspecto caridoso, inicialmente, até resgatando a ideia inicial de deturpação apresentada no artigo, cometemos absurdos em nome dessa pureza doutrinária. Somos duros, rígidos, encapsulados em relação às pessoas, mais preocupados com a forma e menos com o conteúdo, alheios às necessidades de cada um, tentando encontrar uma doutrina estática e universal, o que seria uma grande pretensão, vinculando todos a nossas interpretações. Um caminho perigoso, de autoritarismos…

E isso gera, por vezes, um patrulhamento doutrinário diretivo, que poderia ser substituído pelo debate franco sobre as ideias ali postas. Exemplo dessa atitude última é a de amigos do movimento que mantêm página na qual discutem abertamente a pertinência de determinadas obras, em face à profusão de literatura mediúnica na qual vivemos. Tem-se ali um debate, no qual se argumenta e se expõe o que daquela obra é incoerente com a lógica e com os postulados espíritas. Exercita-se assim, de maneira fraterna, o chamado diálogo crítico.

E no que se refere ao diálogo crítico, complementando a ideia do parágrafo anterior, a força de nossas convicções é a análise racional dos atos e fatos à luz de nosso paradigma, entendendo que, como dizia Gibran na sua obra “O profeta”, não diga que encontrou a verdade, e sim uma verdade. Sim, o espiritismo não é e nunca se propôs a ser estático, a verdade absoluta, mas isso não faz dele uma panaceia que tudo absorve. É preciso estudar e refletir, e não consumir pacotes prontos do que é bom ou ruim, e nisso está a capacidade de sobrevivência do espiritismo.

Por isso, o espaço do doutrinário ou não doutrinário deve ser substituído, ao meu ver, pelo espaço do razoável ou não, do coerente ou não, ampliando-se discussões, abertos a realidades, para que se enxergue sem medo o que anda por aí, e que pensemos que torcer a cara sem nem saber direito do que se trata, ou abraçamos algo por que o médium “X” disse que é bom, é um raso olhar classificador binário, cabendo-nos entender o que daquilo fere o bom senso, mas respeitando aqueles que encontraram ali a sua verdade, rompendo as barreiras, como um certo francês que se recusou a crer que eram as mesas que falavam.

Afinal, esse é o segredo da convivência pacífica entre ideias, da chamada tolerância religiosa, ou mesmo das discussões ditas como ecumênicas. Entender esse contexto de ideias que surgem e que devem ser analisadas e discutidas, com respeito e humildade. Ideias religiosas, ideias do mundo. No mundo da ciência e do conhecimento, tudo muda, tudo se molda. Por isso, a ideia doutrinária e religiosa se impõe à força, dilema que o Espiritismo vem romper com uma “fé raciocinada, capaz de enfrentar a razão em todas as épocas da humanidade”, e isso gera uma constante reavaliação crítica.

Ilustrando essa assustadora possibilidade de mudanças, nos servimos de Thomas Kuhn, um estudioso que vincula a ciência à resolução de problemas em um determinado contexto, do qual emergem verdades em um paradigma, verdades úteis naquele grupo/momento e que podem ser substituídas por outras verdades, diante de situações que surgem. A ciência, para esse autor, se faz em ciclos, nos quais a ciência normal irrompe em crises, revoluções e depois volta a uma nova ciência normal, com o abandono do antigo paradigma e a adoção de um novo, cujos entendimentos sobre conceitos antigos se modificam, não sendo possível interpretar o novo sem uma nova visão, sendo, então, paradigmas incomensuráveis, ou seja, que não se comunicam.

Nesse sentido, uma visão doutrinária hermética e autoritária é um consenso momentâneo de Kuhn, que pode ser minada pela realidade, aquela que não nos pede licença para romper nossos paradigmas e impedir a nossa fossilização, cabendo a nós ter a mente aberta e afiada criticamente para analisar o que surge – mas com o respeito caridoso por outras verdades – e bom senso para ler as forças e os interesses que acompanham cada nova proposição.

Então já posso acender meu incenso na casa espírita ou estudar o levítico nas reuniões doutrinárias, alternado pelo Torá? Bem, o Espiritismo é uma visão de livre consciência, mas a casa espírita é um local de estudo da Doutrina Espírita. O único e especializado local para isso! Nessas casas construímos a relação desse conhecimento espírita com as realidades que se apresentam, respeitando outros saberes e visões, incorporando o que couber à sua lógica, entendendo que aí sempre existem consensos e jogos de força. O que se disse aqui é que estamos distantes de ter uma verdade plena e que cometemos muitas coisas reprováveis em nome de manutenção destas pretensas verdades.

Por isso estudamos e refletimos, não cuidando de decorar trechos de livros como textos sagrados. Essa é a essência espírita, na qual o conceito vale mais que a letra. Se ficarmos estáticos diante dos conceitos que explicam a realidade, não alcançaremos o saber profundo, buscando discutir filigranas de nosso paradigma vigente e fechados ao que surge na realidade à luz de nossa visão. Precisamos de reflexão, humildade e uma mente aberta, para fazer essa relação tríplice de filosofia, ciência e moral (ética), entendendo que os efeitos são relevantes para que a pureza doutrinária não seja, pela sua dureza, um revival de tempos inquisitórios, deturpando a essência do Espiritismo como uma ferramenta filosófica de homens melhores, trabalhando a sua espiritualidade, guiados pela razão e com espírito investigativo.

 

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

 

 

Fonte: https://blogabpe.org/2017/06/03/pureza-ou-dureza-doutrinaria/

 


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