Marcus Vinícius de Azevedo Braga

>    O fosso imaginário

Artigos, teses e publicações

Compartilhar
Marcus Vinícius de Azevedo Braga
>    O fosso imaginário





Certa feita, no elevador conversando com um colega, tecendo comentários matinais sobre os escândalos na gestão de recursos públicos que assolam o Estado desde os romanos, este asseverou, enfático, que se tivesse poder “absoluto”, trocaria todos os cargos político por técnicos, como solução para as mazelas da Administração Pública.

De pronto, assertiva tão contundente teve a minha resposta, indicando que estes mesmos técnicos, ao assumirem as suas funções, converte-iam-se naturalmente em políticos. O amigo se espantou e rimos antes de nos despedirmos a saída do elevador.

Os textos jornalísticos, as mesas de bares, a hora do almoço... em diversos fóruns confrontamos a dimensão política e a técnica, como antagônicas esferas, separadas por um fosso imaginário, tendo no político o estigma do negativo, do sujo e o técnico, envolto em uma aura neutra, certinha, alinhada. Na luta de mundos retos e tortos, somos forçados a escolher um lado nessa polarização e nesta escolha colocamos a fé messiânica na salvação da gestão estatal.

Esse fosso não existe. Essas duas dimensões coexistem na gestão pública, no aspecto político que abarca os processos decisórios, a acomodação das forças e as demandas do jogo do poder, inerente ao ser humano desde os tempos tribais; bem como no lado técnico, que envolve o saber, o procedimental, o normatizado, na busca racional por uma solução viável e eficiente, por meios impessoais.

Uma ação pública envolve essas duas facetas, imbricadas. Uma relação dialética entre a forma de executar e a forma de decidir, entre o certo e o legítimo, entre o pensado e o construído. E uma interfere na outra. A forma de gerir afeta os processos decisórios, no feedback dos resultados; assim como os caminhos escolhidos tem efeito sobre a forma de gestão das políticas no mundo real. A política, com a sua aura de politicagem, e a técnica, com a sua fama de neutralidade, apesar de ambas se digladiarem nas discussões sobre a solução para a gestão pública, atuam de forma complementar, no cotidiano da vida prática.

O lado político, por exemplo, floresce na vida pública, como nas recentes manifestações do outono de 2013 no Brasil, nas quais se trocou Vandré por Renato Russo, cravos por vinagre e liberdade por melhores serviços públicos, na qual segmentos da população buscaram interferir na gestão pública. Para além do momento do voto, as pessoas pressionam governos e parlamentos, na dimensão política que aproxima o cidadão da gestão, em uma interação permanente que rompe as barreiras da burocracia.

Da mesma forma, o aspecto técnico das soluções mirabolantes comparece vinculado ao político nas tecnologias sociais como a Carta SUS, que integram a população na melhoria das políticas públicas materializadas. Soluções racionais podem contar com o auxílio da manifestação popular para atingir seus objetivos. A apropriação da população se faz necessária, mesmo nas mais elaboradas soluções técnicas, quando falamos de governo, posto que a democracia prevê essa interação popular contínua, de forma organizada ou não, para a construção de suas eficácias e eficiências.

O que não podemos é cair na armadilha de extremos, achando que o gerencialismo puro ou uma democratização utópica darão conta das questões sociais. Curiosamente, essa pseudo-tensão nós importamos, como de costume, de modelos estrangeiros, sem as devidas correções de latitude. Vê-se então na literatura modelos que temem a captura do Estado pela burocracia e valorizam o representante eleito, nas lentes da doutrina do neopatrimonialismo. Entretanto, o senso comum pátrio despreza o potencial de representantes eleitos e valoriza o técnico-burocrático, na linha similar ao colega do elevador. Variamos em um jogo de vilões que se alternam ao sabor das ondas.

No nosso país, o burocrata é o salvador, como o clássico “Tropa de elite”, com o Capitão Nascimento, concursado, de carreira, figurando como o herói solitário. Ao mesmo tempo, o representante popular, o deputado estadual do filme, é o vilão a engendrar as negociatas. A tradição estadunidense valoriza mais seus representantes eleitos, em detrimento da fria burocracia. São visões diferentes, fruto de processos históricos.

No Brasil ainda carecemos de uma burocracia fortalecida e profissionalizada nas diversas atuações estatais, mormente na gestão de pequenos e médios municípios. De toda sorte, no nosso cenário de imaturidade política, uma herança histórica e da falta de lutas, arrastamos também uma baixa expertise na escolha de nossas representações nos ciclos eleitorais, e pior, no acompanhamento diuturno da vida pública. Carentes nos vemos em ambas as dimensões, quando falamos do trato das questões coletivas.

O caso brasileiro reclama um fortalecimento duplo, dos processos de profissionalização da atividade estatal, por meio das clássicas medidas de concurso público, encarreiramento, capacitação no âmbito estratégico e da meritocracia. Da mesma forma, o robustecimento do viés político demanda um incremento da qualidade na participação popular, do controle social, do envolvimento com a gestão pública, da transparência e no assento ativo em conselhos e espaços similares.

Muito avançamos nas últimas décadas nos quesitos citados, mas para nos tornarmos o “país do futuro”, além do mantra do investimento em educação, necessitamos crescer na esfera pública no quesito da institucionalização, que possibilite a profissionalização da burocracia e incremente a participação popular.

Uma ação governamental não é um papel em um gabinete, é uma ação viva, que se materializa nas interações do governo com diversos atores, entre soluções e participações, entre planejadores e executores. A tensão entre o político e o técnico, arremedo da oposição entre o público e o privado, precisa ser superada em processos de integração.

O conselho e o concurso, as avaliações e a passeata, esses e outros mecanismos do moderno Estado democrático são bandeiras, que se bem empunhadas, nos dirão onde nos encontraremos como nação nos próximos 20 anos. O fosso precisa ser rompido, para que, entre soluções exatas e legítimas construamos a ponte que permita erigir, cada vez mais, um país, com projeto e futuro.

 


Fonte:
http://www.administradores.com.br/artigos/administracao-e-negocios/o-fosso-imaginario/72622/

 


topo

Leiam outros textos de Marcus Vinícius de Azevedo Braga:

-> Arranjos produtivos da mediunidade
-> Café, sustentabilidade e a governança das políticas públicas
-> Casa Espírita Amazonas Hércules: há 28 anos a serviço do próximo
-> Desenho Animado é coisa séria: o imaginário infantil e os conceitos espíritas
-> O Deus da Polinésia
-> Em 150 anos
-> O Fantasminha Camarada
-> A Ferramenta do Bem
-> O fosso imaginário
-> A fraternidade esquecida
-> A hipótese insuperável de Kardec
-> O martelo ainda ecoa, a chama ainda arde: a mediunidade e a caça às bruxas
-> Namoro Espírita
-> Nossa relação com a mediunidade
-> Para além da porteira
-> Práticas salutares na condução de trabalhos espíritas
-> Predição do futuro causa polêmica em meio acadêmico
-> Pureza ou dureza doutrinária?
-> Quo Vadis?
-> O real e o engenho
-> Reflexões sobre a vida a dois
-> Sexualidade e responsabilidade
-> Tesouros da Juventude
-> Tolerância é uma palavra feia
-> Um dia de Buda

Marcus Vinícius de Azevedo Braga & Paulo de Tarso Lyra
-> A força do Espiritismo


topo

 

 

Acessem os Artigos, teses e publicações: ordem pelo sobrenome dos autores :
- A - B - C - D - E - F - G - H - I - J - K - L - M - N - O
- P - Q - R - S - T - U - V - W - X - Y - Z - Allan Kardec
* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual