Espiritualidade e Sociedade



Marcus Vinicius de Azevedo Braga

>      O Fantasminha Camarada

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Marcus Vinicius de Azevedo Braga
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Vira e mexe surge em algum periódico a notícia de um fantasma... Mas, não se trata de uma notícia da esfera do sobrenatural, um “X-files”, e sim de um fato bem materializado no mundo real, o famoso “funcionário fantasma”.

Retrocesso patrimonialista, a casuística indica em algumas administrações públicas a ocorrência desse fenômeno, que se caracteriza pelo titular de um cargo ou emprego público receber seus proventos sem ele mesmo se materializar no seu ambiente de trabalho, no exercício de suas funções previstas.

As tipologias dessa fraude fantasmagórica assumem diversos matizes. Temos os “Fantasmas” clássicos, que são nomeados e nunca compareceram no seu ofício para a labuta; existem os fantasmas parciais, o “quase-mortos”, que recebem por uma carga horária que não cumprem; bem como podemos citar os aposentados incluídos de forma fraudulenta nas folhas e ainda, os plantonistas das diversas colocações profissionais, que quando escalados não se fazem presentes em seus plantões.

Nessa verdadeira “zumbilândia”, essas tipologias, presentes nas conversas e nos jornais, denúncias e relatórios de auditoria, não constituem uma lista exaustiva e sim um conjunto de possibilidades nos desafios da gestão de pessoal, na qual a criatividade sempre nos surpreende com novas atuações. No ambiente público e privado, colhemos a casuística daqueles que conseguem driblar o exercício de suas atividades, lesando pontos biométricos, câmeras, chefes, seguranças e supervisores, motivados pela preguiça, pelo outro emprego ou ainda, pelo simples prazer de “se dar bem”.

O “fantasminha camarada” se origina na fragilidade dos controles que possibilitam assegurar que o detentor do cargo ou emprego público tenha sido corretamente investido, que execute as suas tarefas e que tenha a remuneração estipulada para aquele enquadramento. Obviamente, tratando-se de volumes grandiosos de funcionários, espalhados em uma larga base territorial, com uma diversidade de funções e horários, dificulta-se sobremaneira esse controle, por conta dessas variáveis, demandando ferramentas complexas para a sua realização.

Mais do que uma situação vergonhosa, o funcionário fantasma afeta a credibilidade do sistema de gestão de pessoal, para dentro e para fora da organização, além de gerar inequidade no ambiente de trabalho e por fim, desviar horas de trabalho que seriam úteis na condução de políticas públicas. Aí, falta o médico, o professor, e tantos outros, essenciais em um serviço público no qual o capital humano é intensivo.

Certamente que isso não indica que apenas o cumprimento de horas de forma taylorista resulta em produtividade. Pode-se ser um “zumbi” profissional, estando de “corpo presente” no trabalho, mas sem se produzir nada, principalmente em ambientes gerenciais que não valorizem o atingimento de metas, a eficácia e a eficiência. Entretanto, devemos considerar que a presença física é um fator essencial para a eficácia na maioria das ocupações, respeitando-se os avanços na discussão do teletrabalho e do “home office” nos tempos atuais.

O presente artigo não intenciona apenas discutir a tipologia do funcionário fantasma, mas apontar também as medidas que o gestor público (e privado), bem como o controle social, podem adotar no sentido de coibir a ocorrência dessa situação infeliz. Medidas simples e de baixo custo organizacional, que podem ter um efeito preventivo razoável, partindo-se do princípio que a questão do “fantasma” é real e provável, e que os prejuízos transcendem a folha de pessoal, afetando o clima organizacional e a motivação daqueles que realmente produzem.

Assim, podemos indicar algumas medidas preventivas, a serem adotadas na gestão, que podem coibir, ou trazer a níveis aceitáveis-pelo custo benefício- o fenômeno patrimonialista dos funcionários fantasmas. Cabe registrar que o fim das medidas de controle primário não é a presença do funcionário em si, e sim a adesão, a conformidade e que isso reverta, obviamente, em eficácia e eficiência a organização.

 

1) DENÚNCIA

Mais eficiente que qualquer sistema moderno e tecnológico, o acompanhamento por parte dos colegas de trabalho e dos cidadãos beneficiários é um meio eficaz de controle de postos de trabalho. Para isso, é necessário um canal de credibilidade para a recepção e o processamento de denúncias, dando a essas informações a importância que elas merecem na governança de atividades, em especial aquelas realizadas distantes dos órgãos gestores.

 

2) CRUZAMENTO DE DADOS

O cruzamento de banco de dados, em especial aqueles que indiquem a carga horária de funcionários e o seu local de residência, são bons instrumentos para a verificação da incompatibilidade que pode denotar a atuação de fantasmas. Geralmente, fantasmas acumulam cargos cuja carga horária é factualmente inviável, de modo que a razoabilidade indica que uma carga horária acima de 60 horas semanais já merece atenção especial.

 

3) TRANSPARÊNCIA

A publicação na internet dos titulares de determinados postos de trabalho, em especial aqueles que envolvem o atendimento ao público, e ainda, a publicação dos servidores lotados nos órgãos é uma ferramenta para municiar o controle social na detecção de situações anômalas, que podem estar envolvendo a ausência crônica dos funcionários.

 

4) MOMENTOS CRITICOS- ENTRADA, SAÍDA, APOSENTADORIA

O momento da admissão e da dispensa de um funcionário são críticos para possibilitar a existência de fraudes, devendo se revestir de uma análise mais acurada e mais detalhada, envolvendo diligências, se possível. Atuam hoje assim os órgãos de controle, como o caso do TCU, dado que o inciso III do art. 71 da Constituição Federal estabelece que compete aquele Tribunal de Contas apreciar, para fins de registro, a legalidade dos atos de admissão de pessoal na administração direta e indireta.

 

5) RECADASTRAMENTO APOSENTADO E PENSIONISTA

O recadastramento, ainda que rotativo, é uma excelente ferramenta quando as questões de folha de pessoal envolvem inativos, ou seja, pessoas que já não realizam atividades laborais, o que dificulta a sua localização física. Os recadastramentos devem prever as situações de pessoas com problemas de locomoção e ainda, dispositivos que permitam a efetiva identificação do beneficiário no momento do recadastramento.

 

6) AFERIÇÕES DE PRODUTIVADE, METAS E INDICADORES

A verificação do desempenho de equipes pode revelar indícios de ausências crônicas nestas. Ainda que as pessoas tenham a sua subjetividade e nem todo trabalho seja reduzido a questões tayloristas, é possível se estabelecer parâmetros que indiquem que com aquela quantidade de pessoal se pode fazer um determinado número de atividades, e fugir muito disso é um indicativo de que algo está errado.

 

7) ROTATIVIDADE

A rotatividade de pessoal rompe acordos informais e permite que as concessões e as facilidades que alimentam os fantasmas tenham que ser reconstruídas, sendo muito salutar para toda a organização. Ao se rodar chefes e funcionários, o fantasma vai ter que conquistar a confiança daquele novo grupo e a chance de denúncias aumenta, inibindo a prática.

Diz o ditado: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. No caso do funcionário fantasma, é sempre bom crer que essa situação é factível e que merece a nossa atenção e consideração. Os efeitos sobre a produtividade e sobre o clima organizacional são danosos, além de trazer prejuízos a imagem da gestão, dado que os vizinhos sempre veem aquele que não trabalha. Cabe registra, ainda, que se trata de uma situação de dano ao erário, dado que o servidor recebe sem ofertar a contrapartida laboral.

De uma pequena brecha, da falta de controles, surgem essas situações, que se alastram pela organização, sendo difícil o seu rompimento, nos hábitos já instalados, e no discurso de vitimização que pretensamente tudo justifica. Medidas simples, às vezes alvo de resistências, mas que se adotadas de forma cotidiana afastam de nós, gestores, esse fantasma. Bem, nos assuntos dessa ordem, é melhor prevenir, do que depois sair caçando fantasmas por aí...

 

 

Fonte:
http://www.administradores.com.br/mobile/artigos/cotidiano/o-fantasminha-camarada/73377

 


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