Marcus Vinícius de Azevedo Braga

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Marcus Vinícius de Azevedo Braga
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Café, sustentabilidade e a governança das políticas públicas



Um simples cafezinho pode nos ensinar muito sobre a gestão...

No mítico centro da cidade do Rio de Janeiro, a nossa Sebastiana, um grupo de jovens ousado e visionário inventou uma nova forma de se vender café. Em um ambiente simples e agradável da sobreloja do edifício garagem “Menezes Cortes”, eles instalaram as suas máquinas com cafés personalizados e artesanais, tendo ao fundo, colado na parede, um rústico quadro negro, que estampa os custos necessários a produção de cada produto disponível.

O diferencial do referido estabelecimento comercial é que cada cliente paga o que achar justo, ou ainda, o que puder naquele dia! Os clientes sabem dos custos envolvidos e são convidados a ofertar um preço por eles considerado justo. Ao chegar lá um novo cliente, existe uma preleção sobre a filosofia desse singelo negócio, e ainda que você custe a acreditar que isso é possível, fica claro que a ideia é que você se sinta bem, que se crie ali uma relação sustentável, em torno do nosso já conhecido cafezinho.

Relação sustentável, essa é a pedra de toque que faz estar cheio o local todas as vezes que lá estive. Aqueles meninos vão longe... A cumplicidade, o ambiente de pertencimento, de satisfação mútua, essas são as chaves. Surge uma rede de fidelização...

Desde os estudos de Moreno sobre crianças brincando nos parquinhos até as reflexões de Marcel Mauss sobre a dádiva, nas lembranças das valiosas aulas do Prof. Calmon da Universidade de Brasília, muitas ideias contribuíram para conceituar as redes, que não são discussões do campo da informática e sim das relações humanas, que usam vários instrumentos na sua construção, da voz ao Facebook.

As redes são arranjos de atores não hierarquizados, com regras e relações, buscando pela adesão atender objetivos comuns, mesclando em sua governança arranjos produtivos de caráter competitivo e cooperativo.

Seja em torno do café, seja para promover a Educação Básica em nosso município, temos vários motivos para nos organizarmos em torno de uma ação comum, cada um remunerado a sua maneira, mas com um quê de doação, de articulação, de não valoração de todos os insumos.

Intervimos assim na realidade de forma matricial, para além de um paradigma burocrático, de valorização de normas na regulação das relações, ou de uma visão mercadológica, na qual o ganho se faz apenas na disputa e na satisfação de necessidades de forma biunívoca. O móvel da discussão das redes, que se aplica também a gestão de políticas públicas, nos traz um modelo mais realista, no jogo de forças sociais e no moto das ações humanas.

Assim como os meninos do café, as redes necessitam ser sustentáveis. Esse é um dos princípios básicos da sua governança. Não adianta somente a ação incisiva da supremacia da norma e nem apenas o confronto na busca da melhor opção. As relações se pautam por interesses comuns, associados, com custos transacionais às vezes não mensuráveis, e isso deve e pode ser considerado no projeto de governança.

Essa é a essência da atividade estatal e por isso o desenho matricial se ajusta tão bem a essa seara. De arranjos federativos a consórcios de organizações civis e órgãos estatais, a ideia da rede se ajusta bem a gestão dessas atividades, demandando, obviamente mecanismos de governança, para que ela seja produtiva, tenha sentido.

Isso não significa negar o conflito, os desequilíbrios e sim propor a construção de novas formas de arranjar forças, necessidades e conflitos. A governança da rede funciona na base da indulgência, desse entendimento das fragilidades e potencialidades dos envolvidos e da necessidade de se ceder para a construção dos objetivos planejados, exercendo a hierarquia em determinados momentos e fomentando a competição em outros.

Desse modo, discussões recentes como a transparência, o controle social, a gestão de riscos, ajustam-se de forma primorosa a visão de mecanismos de governança em rede, pois esses mecanismos aumentam a confiança no sistema e torna as relações mais sustentáveis, pelo fluxo de informações e pela dosagem das interações.

O sistema funciona a base de credibilidade. Os atores aderem as ações propostas pela crença de se tratar de uma relação de ganha-ganha. Não existe sistema hierárquico perfeito, pois as ordens são reinventadas e descumpridas por força de interesses mais próximos. Não existe mercado perfeito, nos interesses difusos e complexos e na falta de uma visão onisciente de tudo que é necessário e ofertado, e pelas diferenças naturais que geram desequilíbrios que prejudicam o todo.

Tudo cai na rede, no arranjo de forças e vontades, onde conta a remuneração, mas conta também o dever e a necessidade de ajustes para se construir o desejável e o possível. Daí giram concessões, ganhos, e outras ações que permitam a sobrevivência do projeto pretendido.

A governança das políticas públicas, em especiais as sociais, envolvem múltiplos parceiros, estatais ou não, movimentos sociais, e essa abordagem vem ao encontro desse tipo de atuação, na necessidade de um Estado plural, mas que seja eficaz e eficiente, contemplando atores, interesses e possibilidades e que esses possam se controlar e construir regras próprias, mas que se tenham diretrizes comuns, como parte do processo de gestão, para evitar ociosidades e explorações.

Um simples programa de merenda escolar envolve vários atores: alunos, profissionais da saúde, pais, governo, empresas, merendeiras, professores, transportadoras... Cada qual objetivando maximizar seus ganhos. A governança em rede, pela atuação em determinados pontos de controle, pelo fomento a competição pela transparência, pela criação de fóruns de debate para ouvir clientes segmentados, pode trazer equilíbrio a rede de forma dinâmica, sabendo que o poder organizacional se espraia, tentando desequilibrar as relações nessa maximização.

Fugir disso é endeusar a burocracia, que pode se converter em autoritarismo, ou é jogar tudo na conta do mercado, que visa o lucro de poucos, gerando outras formas de dominação. A lógica é a sustentabilidade da rede! Criamos um programa para que ele subsista, atenda a todos de forma melhor no decorrer do tempo, não visando o lucro individualizado ou o cumprimento de normas ensimesmado.

Um dia após o outro vivemos, colhemos frutos que outras gerações plantaram e plantamos muito do que não colheremos. Às vezes ganhando, às vezes perdendo... Para o sistema sobreviver é preciso confiança e ganho mútuo, carecendo de governança, como um maestro a reger todo esse processo. E isso custa mais que um cafezinho...

 

Fonte:
http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/cafe-sustentabilidade-e-a-governanca-das-politicas-publicas/75726/

 

 


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