Espiritualidade e Sociedade



Vera Meira Bestene

>   O Rigor das Leis Humanas

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Vera Meira Bestene
>   O Rigor das Leis Humanas


A vida é direito de todo homem e deve ser tutelada. Vivendo em sociedade, todos tem seus direitos a gozar e obrigações a cumprir. A vida é um bem inviolável e inatingível. A Lei das Leis é a proteção à vida, posto que o Espiritismo é radicalmente contrário à Pena Capital ou a interrupção da vida sob quaisquer justificativas, porque entende que a morte do aparelho físico não resolve nenhum problema. Assim acontece com o criminoso. Sua morte corpórea não lhe redime a falta. O Homem como espírito eterno, está muito além da vestimenta corpórea e a cada nascimento físico, recebe nova roupagem psicossomática, para facilitar o seu progresso.

A sociedade, para que tenha harmonia, necessita de leis humanas, independentemente das Leis naturais. As paixões humanas levam as leis humanas a serem mutantes, progressivas e variáveis. Faz-se mister, portanto, que haja uma relativa severidade das Leis Penais para que impere a ordem social. Uma sociedade ainda muito impura, depravada, tem necessidade de leis mais severas, entretanto, como nos alerta o Livro dos Espíritos, as Leis humanas preocupam-se apenas em punir o mal depois de que ele foi praticado e esquece-se de procurar preveni-lo, ensinar e incitar ao bem para evitar o cometimento de delitos. “Não há senão a educação para reformar os homens. Então eles não terão mais necessidade de Leis tão rigorosas.”(Livro dos Espíritos, resposta à pergunta de número 796 - “in fini”.). Allan Kardec tratou a Pena de Morte, dentro da “Lei da Destruição” , nas questões 760 a 765 de “O Livro dos Espíritos”. Aqui chamamos a atenção da Pena de Morte, por ser esta a maneira mais rigorosa de punição das Leis humanas. Podemos, pela leituta do Livro dos Espíritos, sintetizar que a pena capital ainda será totalmente banida do seio da terra, a partir de quando surgirá um sinal de progresso para a humanidade, sendo esta, portanto, a marca de que o homem estará mais esclarecido.

Se olharmos sob uma visão dissociada de análise, poderemos pensar erroneamente que Cristo consagrou a pena de Talião quando proferiu as seguintes palavras: “quem matou com a espada, pela espada perecerá”. Esta não é uma visão correta das palavras de Jesus, muito menos pode-se interpretá-la como sendo uma aceitação ou um caminho para a pena de morte. Entretanto será correta a orientação dada pelos Espíritos Superiores, que alertam para o cuidado que sempre devemos ter para com a interpretação dos ensinamentos contidos nas palavras de Cristo que encerram, neste caso citado, que aquele que foi causa de sofrimento para com seus semelhantes virá a encontrar-se em condição que sofrerá o que tenha feito sofrer, sendo este, portanto, o verdadeiro sentido da palavra de Jesus.

O homem não deve, com o homicídio legalizado, que é a pena de morte, cortar as provas de uma encarnação humana. Deve antes, colaborando com os Espíritos Superiores, tentar fazer progredir o espírito, induzindo-o ao arrependimento e promover o labor instituído dentro do sistema prisional, com a efetiva punibilidade através da prisão perpétua para os crimes mais graves e hediondos e até com penas de prisão por tempo indeterminado para crimes graves mas não hediondos. Certamente que o sistema carcerário teria uma alavanca de repressão à criminalidade pois a prisão perpétua seria um freio e os sistemas prisionais modificados fariam com que as finalidades da pena criminal fossem atendidas. A retribuição ao crime com a privação perpétua da liberdade (no Brasil não temos esta forma de penalidade), sendo esta bastante enérgica, entretanto sem violência, serve como prevenção, posto que, a certeza da prisão até a morte, conterá muitos ímpetos criminosos e a por tempo indeterminado inibirá e acarretará uma menor violência social, uma vez que o criminoso será afastado da sociedade, por período que eqüivalerá ao crime cometido, podendo este ser até o final de seus dias. Teríamos desta forma dois tipos de punibilidade ainda não existentes no Brasil mas que, com certeza, tanto a prisão por tempo indeterminado como a perpétua inibiriam a crescente onda de criminalidade, servindo mesmo como uma forma de prevenção.

Sabemos que o criminoso violento nada mais é que um espírito moralmente muito atrasado colocado junto à determinadas situações para cumprimento de seus desígnios superiores. Seguindo esta linha podemos observar que a execução de um delinqüente, mesmo que sua responsabilidade seja comprovada, pelo mas vil e hediondo dos crimes, terá como efeito apenas a liberdade dos grilhões da carne mas permanecerá o corpo espiritual estacionado na prática do mal que passará a viver no espaço invisível que nos envolve tendo toda a possibilidade de continuar sugerindo conselhos pérfidos a seus companheiros do mal, como também obsidiar seus algozes. Não podemos jamais olvidar que não é o corpo que tem alma mas o espírito que se reveste temporariamente de um corpo que lhe serve de abrigo. A obstinação do mal, em vida, provém muitas vezes do orgulho de quem se recusa em confessar seus próprios erros, tanto que está o homem sujeito às interferências da matéria, fazendo-lhe obscurecer o entendimento espiritual.

A arte de formar caráter incute hábitos enquanto que educação é o conjunto de hábitos adquiridos. Muitos são os indivíduos que dia a dia são lançados ao seio da população, totalmente sem freios, entregues a seus próprios instintos, A arte de formar o caráter, quando for mais conhecida, compreendida e praticada proporcionará ao mundo homens de melhores hábitos que lhe permitirão atravessar a vida de forma menos penosa. É imperioso que nos eduquemos nos moldes da Doutrina Espírita porque só assim estaremos aptos a educar, isto é, incluir hábitos de caráter elevado, dentro dos princípios das Leis Morais, tanto às crianças, quanto aos adolescentes, promovendo uma prevenção eficaz contra a criminalidade. Quando isto acontecer a sociedade estará expurgada de seres malfazejos e as Leis terão a destinação de secar a fonte do mal e, reformulados pela educação, os homens não mais precisarão de penas de morte, sentenças indeterminadas e outras tantas formas de punibilidades severas. Este será o passo decisivo para que a terra alcance seu destino cósmico, deixando assim de ser um planeta de provas e expiações para converter-se em regenerador, prosseguindo em direção a um dos mundos superiores em que o bem sobrepujará o mal.



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Fonte: http://www.geae.inf.br - Ano 07 - Número 326 - 1999

 


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