Espiritualidade e Sociedade



Marcelo e Mônica Berezutchi

>    O que os Orixás reservaram para nós?

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Marcelo e Mônica Berezutchi
>   O que os Orixás reservaram para nós?

 

Lembro-me como se fosse hoje:

Cheguei atrasado no terreiro e o silêncio imperava no local.

No início não entendi o que acontecia, a assistência quieta e ao lado direito um pequeno grupo se reunia à volta de uma pessoa que pedia para nós uma licença para executarmos nossos trabalhos religiosos.

Que raios de licença era essa?

Licença nós já pedíamos para os Orixás no início de cada trabalho, não entendíamos mais nada.

Se a Constituição garante a liberdade de culto e de crença, nós estávamos no nosso direito.

Nos sentimos vilipendiados, usurpados e lá no fundo nos sentimos esmagados pelo preconceito, não o preconceito que aparece, mas o pior preconceito que existe, o preconceito silencioso.


Começou nesse dia nossa luta.

Luta contra um preconceito e uma ignorância sem tamanho, uma guerra silenciosa que vence aquele que não desiste, pois nessa guerra sempre alguém acaba perdendo e geralmente nesse caso somos nós UMBANDISTAS que perdemos, perdemos nosso direto de expressar nossa religiosidade, nossa individualidade e só não perdemos a dignidade, porque às vezes é a única coisa que nos resta.

Infelizmente, na nossa religião, a união ainda é um artigo de luxo, pois são poucas pessoas que pensam em um bem maior para a nossa religião. A maioria só quer o poder e na hora de ajudar aqueles que precisam, simplesmente os afundam mais.

Sei, irmãos, que essas palavras são duras, mas é a nossa realidade atual.

Nosso caminho não foi fácil, nosso primeiro contato com a prefeitura serviu apenas para ganhar uma multa.

O fiscal apareceu no primeiro dia nos intimou a ir a Prefeitura Municipal de São Paulo - PMSP, sem intimação, e nós, como queríamos fazer tudo correto, queríamos legalizar nossa situação, fomos de boa vontade.

Detalhe: nessa época o terreiro era na minha casa e sendo assim eu não precisava ir a PMSP, pois não devia nada a ninguém, mas onde estava a alma caridosa para explicar isso?

Chegamos à prefeitura preenchemos uma ficha que serviu apenas para lavrar a multa, nossa primeira de muitas...

Foi difícil, mas conseguimos entender e superar essa fase e a PMSP nos esqueceu por um período, mas a ferida estava aberta, o que mais me doía era o fato de que nós como muito de vocês pagamos nossos impostos em dia e ninguém da PMSP nos explicava como deveríamos tirar a bendita licença de funcionamento, não existia uma central de esclarecimento.

Graças ao preconceito de algumas pessoas, depois da prefeitura foi a vez da delegacia, mas nós fomos a delegacia para reclamar do preconceito.

Isso mesmo: estávamos sofrendo por intolerância religiosa.

Fui aconselhado por “amigos” a procurar a delegacia do bairro, já que nessa época ainda não existia a delegacia de intolerância religiosa.

Como estávamos sofrendo com o preconceito tomamos coragem nos vestimos de branco e fomos lá.

A sorte é que fui com um advogado: quase ficamos presos.

Fomos reclamar de preconceito de uma pessoa contra nossa religião e o delegado era da mesma religião que o meu perseguidor... Oh, azar!!

Bem, depois de muita polêmica, o delegado nos garantiu que não era caso de Boletim de Ocorrência e que iria chamar a pessoa para esclarecimentos.

Coincidência ou não, depois desses esclarecimentos nosso terreiro foi denunciado em todos órgãos públicos da região.

Nós fomos ao Disk-Psiu, ao Tribunal de Pequenas Causas, por onde vocês imaginarem, nós passamos, cada dia era uma nova emoção.

Pelos idos de 1999, o terreiro cresceu e resolvemos sair da nossa casa. Éramos felizes e não sabíamos.


Alugamos um local maior, pois queríamos receber mais pessoas e ajudar mais irmãos necessitados; nessa época, já distribuíamos cesta básica a algumas famílias.

Parece brincadeira, inauguramos numa sexta-feira e era só alegria; mais uma conquista, pois para nós umbandistas tudo é difícil.

Eu não sou pedreiro, nem meus médiuns são, mas nós reformamos e pintamos que é uma beleza. Na segunda-feira o fiscal da PMSP já estava na minha porta com um histórico de setenta denuncias anônimas de bagunça, algazarra, etc.

Nesse momento, nós ainda não tínhamos entendido o que os Orixás estavam reservando para nós: já estava achando que na encarnação passada nós tínhamos sido um bando de cafajestes, para não dizer outros nomes.

Sentimos que o chão estava se abrindo e nos consumindo aos poucos; mas é nesses momentos difíceis que somos provados e se mantivermos nossa Fé sempre aparece alguém para nos ajudar.

Graças a um médium que tinha bons contatos, conseguimos um bom advogado que nos ajudou a manter a casa aberta, pois não cabe denuncia anônima para nossa situação.

Denuncia anônima deve ser feita para crimes hediondos, não para barulho, algazarra etc.

Bom, mas das multas nós não escapamos, pois a cada visita do fiscal uma multa vinha de brinde.

Essas situações acabaram nos impulsionado a conhecer a legislação e nos preparar para o que estava por vir.

Conhecemos a lei dos 250 metros, aprendemos a fazer estatutos a abrir empresas etc. Mais algum tempo se passou e descobrimos que o estatuto registrado serve para abrir uma empresa, abrir conta em banco, mas não serve para manter nosso terreiro aberto.

É isso mesmo: somente o estatuto não nos dá o direito de exercer nossa religiosidade, pois apesar da Constituição garantir nosso direito, nós estamos sujeitos às leis municipais que nos obrigam a ter a tal licença de funcionamento ou alvará de funcionamento.

Detalhe: quem tem terreiro em casa, não precisa de nada disso, pois você está na sua casa, e apenas precisa se preocupar com o barulho.

Gente, se botequim precisa ter licença de funcionamento, por que nós não precisaríamos? Não é uma coisa lógica?

Todo comércio ou local aberto ao público precisa ter a licença da prefeitura para funcionar.

Bem, meio que aos trancos e barrancos em janeiro de 2006 demos entrada na papelada para a tal licença na prefeitura, digo aos trancos e barrancos, pois não existe um documento ou qualquer esclarecimento por parte da prefeitura de como dar entrada nessa papelada.

Nesse momento começa o desespero e o desamparo, entrega o documento, espera 30 dias, entrega outro, espera mais 30 dias, passam 6 meses e a Prefeitura indeferiu o pedido.

Lá vamos nós de novo, começa todo o processo do zero, tira xerox disso, cópia daquilo, e nesse jogo de gato e rato, nós perdemos um prazo da entrega de um documento e quando achávamos que nada podia ficar pior, em 25 de maio de 2007 às 18h00, nosso terreiro foi fechado e lacrado.

Foi uma festa!

Nunca vimos tanta gente. Vieram 4 fiscais e o subprefeito, até tiraram fotos da lacração.

Nesse dia me senti importante, pois além de ter o terreiro lacrado ainda recebemos 3 pesadas multas.

Esse dia era uma sexta-feira cujos trabalhos seriam as 20h00 e todos os médiuns mais a assistência ficaram de fora impedidos de entrar em nossa casa para rezar, o duro foi não chorar nesse momento e manter a calma, pois a situação era muito complicada.

Fomos para casa arrasados, essa era uma situação que nem em nos nossos piores pesadelos podíamos imaginar.

Como sempre, é na adversidade que se cresce e sem perder a esperança, conseguimos apoio de mais duas pessoas maravilhosas e após longos três meses conseguimos abrir o terreiro usando a força da Lei a nosso favor e novamente iniciamos o processo de legalização do terreiro, mas nada ainda estava resolvido, não precisamos dizer que na PMSP o Templo da Luz Dourada é muito conhecido, pois nosso processo já estava completando anos de existência.

Depois de entregar todos os documentos o processo não evoluía, cada dia o processo estava com um fiscal diferente e nunca tínhamos nada conclusivo, ninguém falava se faltava algo e tampouco liberava a licença.

É importante salientar que nós nunca desistimos, é claro que existem momentos que a situação é muito difícil e até desanimamos um pouco, pois afinal de contas somos seres humanos, mas novamente os Orixás intercederam por nós.

Nesse momento, nós já desconfiávamos quais eram as intenções deles para conosco, e através de duas pessoas maravilhosas que inclusive não são Umbandistas, mas são seres humanos preocupados com a justiça, conseguimos que a Lei fosse cumprida, pois nós não estávamos pedindo nada demais.

Entregamos todos os documentos exigidos e apenas queríamos a nossa licença, que era um direito nosso já que havíamos cumprido com todas as determinações da PMSP.

Podia ter sido diferente e mais fácil, mas infelizmente o ser humano é complicado e se deixa levar muitas vezes por valores duvidosos.

Então com muita satisfação, nós gostaríamos de comunicar que o Templo da Luz Dourada, desde o dia 17 de Setembro de 2008 e após 10 anos de muita luta está devidamente legalizado na PMSP.

Não sei se somos os primeiros, mas sei que são poucos os terreiros legalizados, e estamos legalizados como organização religiosa e na Licença de Funcionamento está escrito em letras maiúsculas:
Salão de Culto (Inclusive Terreiro) – TERREIRO DE UMBANDA.

Gente, isso não tem preço!

Somente essa frase na licença valeu todos os 10 anos de angústia e sofrimento.

O mais importante é que abrimos um precedente e se nós conseguimos, você também pode conseguir e no final seremos muitos e poderemos trabalhar em paz sem ficar imaginando que baterão na nossa porta no dia de trabalho.

Não vamos citar nomes para não sermos injustos, mas gostaríamos de agradecer a todas as pessoas que nos ajudaram nesse processo, que não foram poucas, mas com certeza foram direcionadas pelos nossos queridos e amados Orixás.

O que os Orixás reservaram para nós?

Eles reservaram o conhecimento, pois hoje, graças a eles, sabemos o caminho a ser seguido para a obtenção da legalização do nosso espaço.  

Oxalá abençoe a todos.

 


Pai Marcelo Berezutchi

Mãe Monica Berezutchi

Federação Umbandista Luz Dourada

www.luzdourada.org.br

 

Monica Berezutchi

Ministra os cursos:

Portal de Luz do Pai Obaluayê

Doutrina e Cultura Umbandista

Desenvolvimento Mediúnico

Teologia de Umbanda


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