Espiritualidade e Sociedade



Antonio Baracat


>     Em busca de um critério de verdade e utilidade das comunicações mediúnicas

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Antonio Baracat
>  Em busca de um critério de verdade e utilidade das comunicações mediúnicas


A necessidade do Controle de Qualidade nos Centros Espíritas

 

"AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo."
(I João 4:1)

"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."
(João 8:32)

 

Em 28 de outubro de 2004, quinta-feira, fiquei curioso quando a TV anunciou que um deputado federal havia "incorporado" um espírito durante os trabalhos legislativos. Aguardei a notícia cuja reportagem gravei, sendo comentário final o seguinte:

"- Ao Jornal da Globo o deputado disse por telefone, agora a pouco, que é médium e freqüentemente incorpora espíritos em momentos de oração. Luiz Bassuma disse que não sabe identificar o espírito que se manifestou na sua oração no Congresso Nacional."

Pois, bem.

Já há muito tempo que me defronto com dois problemas: a veracidade e os objetivos reais das comunicações mediúnicas, sua utilidade. Assim, o episódio envolvendo o deputado federal Luiz Bassuma, do PT-BA, reabriu e aprofundou questionamentos.

Sabemos que o fenômeno mediúnico não ocorre sem consentimento do médium, exceto em caso de obsessão. Isto é, se o deputado não desse passividade ao espírito comunicante, não haveria a manifestação registrada no Congresso Nacional. Então, que tipo de comportamento é este, tanto do médium-deputado, quanto do espírito comunicante, que inclusive se "incorpora", vira-e-mexe, em "momentos de oração", e quais os objetivos daquela manifestação?

Ressalte-se que pela prece proferida pelo médium Bassuma não se pode reconhecer um espírito inferior, mas também não se pode interpretar como discurso de um espírito superior. Aos interessados, sugiro que façam download do áudio da manifestação no site da Câmara dos Deputados - www.camara.gov.br -, ouçam e tirem suas próprias conclusões. Também me disponho a gravar em CD e enviar pelo preço de custo, dois reais, mais correio.

Mas, admitamos que a manifestação não foi provocada por um obsessor e sim por um espírito-espírita. Exatamente por isso é que se acentuou minha preocupação. Isso porque, segundo consta, dentre outros, dos livros "Dr. Odilon" e "Liceu da Mediunidade", de Carlos Antonio Baccelli e Paulino Garcia (deputado federal por São Paulo, desencarnado em maio de 1993), publicados pela Didier, de Votuporanga, SP - páginas 123 até 131 - e LEEPP, de Uberaba, MG, - páginas 191 até 214 - existem espíritos-espíritas que dominam certas instituições agindo à margem da codificação. Mais informações, veja em www.baccelli.com.br.

Quer dizer, o fato de um espírito, encarnado ou desencarnado, recitar o pentateuco kardequiano não é o suficiente para qualificá-lo como comprometido com a perspectiva de emancipação das criaturas sob o jugo de Jesus. Aliás, isso não é novidade. Ao longo da história, grandes intérpretes do pensamento, dos discursos e exemplos de Jesus sempre agiram contra seu ensinamento básico que é o amor pela renúncia de si mesmo em favor do próximo. Que o digam as Cruzadas, a ação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, o massacre dos milhares agrupados em torno do Arraial de Canudos ou as nefastas conseqüências das "Marchas da Família, com Deus e pela Liberdade" que desaguaram na Ditadura Militar de 1964, por exemplo.

Ainda hoje, nas mais variadas escolas de interpretação do cristianismo, é o que ocorre. Ora, um presidente protestante norte-americano diz que vai "combater o eixo do mal" e desencadeia desgraças através de guerras no Oriente. Ora, é a vez de um presidente católico brasileiro dizer que "não é Deus e não faz milagres", para com isso justificar a traição de seus públicos compromissos com as maiorias que sofrem à margem dos descaminhos da república. E um presidente não é um indivíduo isolado, mas representante de todo um Estado.

A verdade é que a vida, inclusive nas mais variadas dimensões existenciais, é muito mais prosaica do que possa parecer a um primeiro exame. Quando a "morte" nos colhe, partimos exatamente com as concepções que alimentamos no mundo e vamos nos reunir aos que pensam e agem da mesma maneira dos lados de lá.

Então, é preciso cautela quanto ao conteúdo e a forma de uma manifestação mediúnica, assim como sua veracidade e utilidade. No caso do deputado Bassuma, ainda não cheguei a uma conclusão definitiva, exceto de que há algum problema que precisa ser mais bem examinado.

Contudo, a manifestação no Congresso Nacional não é o único caso questionável nos arraiais espíritas. A seguir, citarei outros exemplos de manifestações mediúnicas questionáveis para sua reflexão, caro/a leitor/a. Aliás, peço-lhe que não acredite em nada do que estou escrevendo. Verifique você mesmo. Faça seus testes e tire suas próprias conclusões. Se puder fazer a gentileza de me enviar o que concluiu, terei máximo interesse em ler e manter o diálogo mais produtivo possível. Entretanto, para aqueles que não se interessarem por uma conversa franca, leal e fraterna, faço desde já meu o lema do grande poeta florentino, Dante Alighieri: Segui il tuo corso e lascia dir la genti!

 

PRIMEIRO CASO

O nome do livro é "O Livro de TOBIAS", publicado desde 1944 pela FEB - Federação Espírita Brasileira de Brasília/Rio de Janeiro. O autor da "Introdução", do "Prefácio" e da "Conclusão", que começa citando Allan Kardec, é Ismael Gomes Braga. O livro adota a tese de Roustaing sobre o "corpo fluídico de Jesus", ou seja, que Jesus não teve um corpo de "carne e osso" como o nosso, mas era apenas uma "aparição tangível".

Para Ismael Gomes Braga (já desencarnado) e seus editores (inclusive os atuais) que continuam comercializando o livro, assim como os de Roustaing, Jesus não reencarnou entre nós: era apenas uma aparição tangível! Francamente, haja imaginação e interesse em complicar o que é simples de ser compreendido: Jesus é nosso amigo, um espírito mais evoluído que se dispõe a nos orientar e jamais faria truques de magia sideral há dois mil anos ou hoje...

Ele esteve encarnado aqui exatamente como um de nós. Para quem quiser saber mais sobre isso recomendo a leitura do livro "Maria de Nazaré", de autoria de João Nunes Maia e Fernando Miramez de Olívideo (espírito) e publicado desde 2001 pela editora Fonte Viva de Belo Horizonte. Segundo os autores, entre nós e Jesus só há uma diferença: o espermatozóide utilizado para fecundar o óvulo de Maria foi produzido fora da nossa dimensão existencial...

SEGUNDO CASO

O nome do livro é "Gestação da Terra", publicado desde 2002 pela Casa dos Espíritos Editora de Contagem, MG. Para variar, Allan Kardec é citado várias vezes. Os autores são: Alex Zarthú, o Indiano (espírito), Robson Pinheiro (médium psicógrafo) e Leonardo Möller (revisor). O último entrou na elaboração do livro, conforme consta do prefácio, da seguinte forma: "(...) Movido por um impulso de ânimo e atração pelos temas abordados, que lembraram os dias da faculdade de História, na Universidade Federal de Minas Gerais (...) fazendo um paralelo com os registros da história oficial". Segundo Leonardo, Robson se dirigiu a ele com o seguinte recado: "- Zarthú pede-me para transmitir a você o convite para um trabalho de parceria. Sugere que você faça uma revisão de toda a obra, tecendo comentários e participando ativamente de sua elaboração."

Portanto, temos três autores: um "espírito superior", um médium psicógrafo bem dotado e um médium revisor com formação em História numa das maiores Universidades do Hemisfério Sul. No entanto, falta o mínimo rigor científico à obra, já que a Ciência da História possui um registro bastante consensual como aliás reconhece o espírito Emmanuel em duas obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier: "A caminho da luz" e "O consolador". E um dos consensos historiográficos - consenso absoluto, diga-se - é que a Comuna de Paris é aquele episódio ocorrido em 1871. Entretanto, na citada obra mediúnica, confusa e carente de sentido, consta a seguinte afirmação, dentre outros absurdos: "Eliphas Lévi Zahed (...) Foi preso diversas vezes por sua simpatia às idéias socialistas da Comuna de Paris (1848)" (pág. 197 - grifos e destaques meus).

Selecionei este trecho, mas poderia citar outros, o que não faço por ora, apenas por medida de economia. O critério foi demonstrar que numa simples data se registra a inconsistência científica de duzentas e oitenta e oito páginas. E o que mais nos espanta é que este livro foi revisado por um médium graduado em História!


TERCEIRO CASO

Por razões e motivos relevantes, compareci a vários Centros Espíritas com o objetivo de verificar a veracidade e a utilidade das comunicações feitas através dos famosos "receituários mediúnicos" e "orientações fraternas". Percebi que existe uma variedade muito grande de serviços nesta área: receitas de medicamentos alopáticos e homeopáticos, cromoterapia, fitoterapia, orientações para leituras, passes e consumo de água fluidificada e até mesmo algumas verdadeiras charadas, textos enigmáticos, para ser decifradas pelos pacientes.

Em alguns casos, percebi que as psicografias chegam a ser totalmente ilegíveis e existe uma equipe de médiuns-intérpretes encarregada de decifrar os garranchos!!! Em outros casos, no próprio Centro Espírita existe uma pequena indústria farmacêutica que comercializa os medicamentos a cinco reais o frasco, conforme receitado por psicofonia pelos espíritos. Curioso, é que neste caso o rol de medicamentos é limitado, mas a aplicação é para toda e qualquer doença e tem até profissional responsável! Existem também casos de "cromoterapia", que são uns espaços cercados por lâmpadas coloridas que fazem um pisca-pisca conforme a receita psicografada: três azuis, dois verdes, quatro vermelhos, dois brancos e por aí vai... Enfim, tem de tudo!

Fiquei muito tempo pensando como é que se poderia conferir se aquilo é verdade ou não e, depois de muita reflexão, criei um personagem: Cláudio Manoel da Costa, o poeta inconfidente, residente na Rua Vila Rica do Ouro Preto (cidade onde ele viveu e desencarnou assassinado), 1789 (ano do desencarne), etc. Disse que era meu tio, estava internado com um quadro grave de câncer de próstata e sai andando de Centro Espírita em Centro Espírita, pedindo "receitas" e "orientações" mediúnicas para meu personagem inexistente. E qual não foi a minha surpresa quando, em todos os casos, cem por cento, as receitas foram emitidas!!!

Tem algum problema aí, caro/a leitor/a...

Não é que a verdade não exista. Existe sim! Eu mesmo já presenciei os médiuns Carlos Antonio Baccelli e Francisco Cândido Xavier psicografando "Cartas Consoladoras" que não deixam a menor margem de dúvida quanto à sua autenticidade e utilidade. Porém, este é o trabalho da minoria... Não é a verdade o que prevalece na comunicação entre os encarnados e desencarnados, nesse orbe de provas e expiações. O que ainda prevalece aqui é a MENTIRA, gostemos ou não disso.


CONCLUSÃO

Limitei-me a expor três casos, mas tenho muitos outros tão relevantes quanto estes. Porém, não me peçam para dar uma resposta cabal a estes fatos porque não a tenho. Só posso afirmar que aqueles que não se acautelarem - e não submeterem todas as comunicações mediúnicas ao crivo rigoroso da razão - estarão abrindo as portas para a fraude. De belos discursos e supostas boas intenções o mundo está cheio. O fato de um espírito, encarnado ou desencarnado, citar ensinamentos de Jesus ou de Allan Kardec não quer dizer nada, pois os falsos profetas o que mais fazem é isso: são lobos em peles de cordeiros.

Talvez o problema decorra do entusiasmo natural de que os espíritas se deixam levar, diante dos conhecimentos que adquirem. Este entusiasmo, ou seja, quando alguém pensa que sabe alguma coisa, é o próprio orgulho. Porque o orgulhoso é exatamente aquele que pensa que sabe algo e não dá ouvido a ninguém mais, nem à voz de sua própria consciência. A verdadeira sabedoria está na humildade de dizer, como Sócrates, precursor de Jesus: "do que sei é que nada sei".

Além do orgulho, que é antes de tudo uma atividade humana e não apenas um sentimento, há também o egoísmo, outra atividade humana, alimentando este problema da falsidade das comunicações mediúnicas. É que, via de regra, os Centros Espíritas se fecham em torno de seus dirigentes no que se refere ao diálogo com os espíritos, denotando exclusivismo. Os dirigentes pensam com isso que se tornam alguma espécie de privilegiados, já que estão acumulando poder na forma de conhecimentos para esta e para as encarnações futuras. Quanta ganância!

Seja como for, Allan Kardec (1) nos orientou que é melhor descartar nove verdades do que admitir uma única mentira e João Evangelista nos alerta (I João 4:1):

"AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo."

E agora, amigo/a leitor/a? Não é hora de fazer o teste da verdade e da utilidade em seu Centro Espírita. Invente um/a personagem e peça uma receita ou orientação para ele/a. Diante do resultado, que deve ser o esperado, reúna os dirigentes da casa para um diálogo fraternal, franco e leal. Afinal, até quando vamos continuar nos enganando e aceitando que nos enganem? Assim, lembremo-nos mais uma vez de João Evangelista, desta vez citando Jesus (João 8:32):

"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."


(1) O autor dessa frase (critério) é o Espírito Erasto, ver in O Livro dos Médiuns, 2ª. parte, cap. XX, Influência Moral dos Médiuns, item 230, obra codificada por Allan Kardec. (Nota do A ERA DO ESPÍRITO).

 

(*) Antonio Baracat (professor de Filosofia e História)

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Fonte: http://www.cele.org.br/embusca041204.html

 

 


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